"Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente,
e não a gente a ele."
(Mário Quintana)

"Eu pensei em dizer tanta coisa, mas pra quê se eu tenho a música?..." (Ricardo Feghali)

"Falar é complicado, quero uma canção..." (Rogério Flausino)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Desesperada por não poder viver tudo

"A vida?
Trajeto de uma montanha-russa
Sete cores de um arco-íris
Tempestades que o precedem
Sete notas musicais com as quais respiro
Meu caleidoscópio
O enigma na entrada da pirâmide,
que a todo instante parece sussurar
em meu ouvido:
Decifra-me ou eu te devoro."

(Fernanda Maria)

Se eu pudesse não estar sujeita à lei que diz que só se vive uma vez...
Ah, se eu pudesse, só por hoje, entrar por todas as portas que vejo abertas e fazer uma forcinha pra abrir as que estão fechadas...
Se eu pudesse transformar em arte final todos os esboços mal-acabados e vacilantes de mim, se eu pudesse chegar ao final de cada um dos modos de viver...
Se eu pudesse, faria e só por hoje, desejaria...

Fazer dias de 32 horas, das quais 15 eu passaria dormindo (só pra poder sonhar mais com você e pros sonhos, tendo mais tempo, parecerem tão reais, como foi o dessa noite...);

Aprender no meu ritmo e do meu jeito, e não estudar sob pressão, obedecendo prazos estipulados, que não respeitam meu fisiológico e seguindo rotinas pré-estabelecidas, que tentam me conter (Rotinas quadradas, não sabem que eu não sei me enquadrar a elas, porque não me sinto limitável por horários, regras e padrões...);

Queria ser poetisa, cantora, obstetra humana, cirurgiã, bióloga, veterinária de animais selvagens e veterinária de eqüinos, além de pesquisadora em Microbiologia, com mestrado e doutorado e, por fim, missionária em alguma cidadezinha pequena por aí;

Queria ter um sítio na Serra, uma casa de praia na Região dos Lagos e uma fazenda em Goiás e estar na cidade grande somente de segunda a sexta, e só por alguns anos;

Queria dirigir meu C3 azul bebê chamado Jack (*derivado americano de Jacob; aquele cujos passos são guiados por Deus) por uma estrada sem fim que me levasse a todos os lugares do mundo (o mundo, esse gigante e seus habitantes que eu passo a vida querendo mudar e ao mesmo tempo, desejando tanto quanto conhecer inteiro...), sentir o vento no rosto, fazendo voar meus cabelos, que seriam ora lisos ora encaracolados, e cantar bem alto junto com o som do carro durante a viagem;

Falaria todas as línguas do meu coração, e seria fluente em inglês, francês e italiano;

Dançaria em todos os passos do ballet, do forró, do jazz e da valsa;

Nadaria com golfinhos, voaria com águias, ouviria o canto das baleias, alimentaria os filhotes de ursos pandas, me sentaria em troncos de árvores com coalas, sugaria o néctar das flores com as borboletas, marcharia com pingüins, bateria palmas para as focas e me esconderia atrás de geleiras com ursos polares. Ah, e faria um safári agarrada no pescoço de uma girafa. Pararia só na hora de escorregar na tromba do elefante;

Se eu pudesse, toda a minha família moraria no mesmo bairro que eu, assim como todos os meus amigos, por que eu tenho constatado (com a dorzinha que isso traz) que as pessoas mais importantes da minha vida moram em outras cidades e estão sempre longe de mim. (sempre, porque se não estão do meu lado todo dia - que é a freqüência com que eu preciso delas - é sempre.);

Queria sentar com você na sombra de uma árvore e juntos experimentaríamos todos os chocolates que existem (porque compartilhamos esse vício em comum...);
Depois disso, se eu pudesse, pediria 3 mil horas pra te beijar, sem pausas, sem encanação, sem analisar, e, claro, usaria a desculpa de que não podemos desperdiçar o sabor do chocolate que ficou em nossos lábios...;

Se eu pudesse, mudaria a cor dos meus olhos de acordo com as minhas emoções, e eles seriam azul brilhantes quando te vêem, verdes esmeralda quando eu estivesse abraçada pelo mar (esse meu grande amor), cinzentos quando estivessem cheios de lágrimas - líquidas ou invisíveis -, vermelhos faiscantes quando qualquer motivo me fizesse querer explodir, e seriam cor-de-rosa quando eu estivesse criança, vendo desenho animado na TV, lendo os gibis da Turma da Mônica ou brincando de boneca. Eles poderiam ser violetas quando a mulher tomasse conta da menina. (E quer saber, eu detesto quando me chamam de mulher. Alguém vê uma mulher em mim? Eu sou só uma menina (cor-de-rosa) que a vida tá tentando transformar em mulher (violeta não... roxo mesmo, daqueles bem provocativos) e vou te falar que ela tá tendo um trabalho enorme;

E seguiria a vida, realizando alguns sonhos pelo caminho: o vestido de noiva branco com pedrinhas cor-de-rosa formando flores e laços, a lua-de-mel em Veneza, o casal de gêmeos, o aniversário de 10 anos deles na Disney, a filha adotiva, o piano de cauda branco na sala, as bodas de prata em Gramado, o Cavalo de Fogo e a vaca Jandira na fazenda, os dálmatas na casa de praia e o Husky Siberiano no sítio, as bodas de ouro na França e o grande final: ver Jesus voltar...

Tô aqui com as minhas divagações sobre essa estranha odisséia que é a vida, porque deveria estar estudando.

Eu não durmo quando todos dormem, eu prefiro ficar acordada quando estão todos quietos e em silêncio, e eu me sinto livre, sem cobranças, sem interrupções, e posso agir com calma, sem barulho... Madrugada, somos eu e você... Bem mais fácil assim...)

Não quero mais ficar presa nesse círculo com números e ponteiros que giram sem parar!

Quero viver tuuudooooo!!
(E só eu sei que esse "tudo" é muito mais abrangente do que qualquer coisa que eu tenha escrito aqui.)
P.S.: "Sim, eu sou livre. Forte e bela na minha ingenuidade e ignorância de tudo. Sequiosa por viver tudo. Desesperada por não poder viver tudo. Só preciso de uma porta aberta... Não quero a violência de arrombá-la!" (Clarice Lispector)

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"Ai, palavras... Ai, palavras... que estranha potência, a vossa! Todo sentido da vida principia à vossa porta!" (Cecília Meireles)