"Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente,
e não a gente a ele."
(Mário Quintana)

"Eu pensei em dizer tanta coisa, mas pra quê se eu tenho a música?..." (Ricardo Feghali)

"Falar é complicado, quero uma canção..." (Rogério Flausino)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A covardia é surda e só ouve o que convém

Lá dentro é fácil de se trabalhar. Ou absurdamente impossível de ficar.
Depende do lado pelo qual você olha.

Os funcionários têm olhos, mas não vêem.
Eu olhei para toda a cadeia produtiva. E comecei pelos olhos que me olhavam perguntando o que estaria para acontecer. E pelas lágrimas que jorraram dos meus próprios olhos por não ter uma resposta para lhes dar.

Eles têm ouvidos, mas não ouvem.
Eu não tinha protetores nas minhas orelhas. Eu ouvi seus gritos e mugidos de medo, de ansiedade e pavor, em meio ao barulho ensurdecedor das máquinas que os penduram, matam, queimam, arrancam sua pele e órgãos e tudo com a maior brutalidade possível, pois tem que ser rápido e, além do mais, não lidam com seres vivos, são seres "insensibilizados".

Eles têm boca, mas sorriem.
Eu fico muda, não penso que aquilo seja natural. Não acredito que para manter a cadeia alimentar e porque faz parte da natureza, seja necessário fazer sofrer.

A necessidade disso não está em alimentar seres humanos (pois, quantos ao redor do mundo terão acesso à quantidade imensurável de carne que sai desses lugares? E quem tem tanta necessidade de proteína animal que só possa ser suprida em restaurantes, rodízios de churrasco semanais, preços estrondosos e que seja preciso inventar toda a variedade de produtos de origem animal hoje existentes, que são consumidos em todas as refeições do dia?)

(Você não precisa comer presunto, ovo e bacon no café da manhã, carne assada e filé de frango
no almoço, salsicha no lanche da tarde e peixe grelhado no jantar. Você não precisa de 20 corações de galinha, lingüiça e picanha no final de semana.)

Eles têm nariz, mas seu olfato não é tão apurado como o dos animais que estão pendurados a sua frente.
Parecem não sentir o mesmo cheiro de sangue que eles sentem lá de fora, enquanto esperam a sua vez.

Eles têm mãos, mas usam luvas.
Não entram em contato com o músculo ainda se contraindo, com a boca, já sem pele, que ainda parece querer dizer (ou gritar) alguma coisa.

Eles têm facas, mas não se cortam.
O corte no pescoço, o sangue, o olhar de desespero não os afeta. Não sensibiliza. E eu não entendo.
Estão inconscientes, mas não é isso que me diz o vômito derramado na calha de sangria, e a aspiração de água no tanque de escaldagem.

Não posso entender como num lugar chamado "sala de matança", encontra-se uma placa com os seguintes dizeres:
"Nesse setor, agradecemos a Deus a oportunidade de transformar vida em alimento."

Se tem um coração batendo, eu me importo.

Não quero ser cúmplice de nenhuma forma de tortura. Muito menos a tortura em nome da ganância e da ambição.
Porque a quantidade de animais que morrem ali daria para ser alimento de toda a população mundial.
E todos nós sabemos que não é isso o que acontece.

"Se você pudesse ver ou sentir o sofrimento,
você certamente não pensaria duas vezes."
(Kim Basinger)


"Não destruas por causa da comida as obras de Deus. Todas as coisas, na verdade, são limpas, mas é mau para o homem o comer com escândalo." (Romanos 14.20)

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"Ai, palavras... Ai, palavras... que estranha potência, a vossa! Todo sentido da vida principia à vossa porta!" (Cecília Meireles)