" Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro;
de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro;
e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos,
no toldo (a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão."
De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro;
de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro;
e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos,
no toldo (a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão."
(Tecendo a manhã - João Cabral de Mello)
Poesia do último dia. Dos momentos finais da nossa manhã.
A manhã que tecemos por sete anos.
As manhãs em que vivemos entre gritos de galo
e fios de sol.
Hoje, aparentemente terminada essa manhã,
os responsáveis por terem tornado-a tão inesquecível
se encontram para relembrá-la.
Até os que não foram avisados do encontro apareceram,
talvem tenham ouvido, ainda que sem perceber,
os ecos do canto do galo...
Momentos feitos de lembranças, risos, histórias,
cores, fotos, palavras amigas, promessas de haver outros encontros, e certeza de que dentro de nós
essa manhã sempre permanecerá.
Como parte de nós,
parte da nossa história.
Parte do nosso dia.
(Manhã = os sete anos a que me refiro.
Dia = a vida inteira.)









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"Ai, palavras... Ai, palavras... que estranha potência, a vossa! Todo sentido da vida principia à vossa porta!" (Cecília Meireles)