"Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente,
e não a gente a ele."
(Mário Quintana)

"Eu pensei em dizer tanta coisa, mas pra quê se eu tenho a música?..." (Ricardo Feghali)

"Falar é complicado, quero uma canção..." (Rogério Flausino)

sábado, 7 de junho de 2008

Tecendo a manhã











" Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro;

de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro;
e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos,
no toldo (a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão."

(Tecendo a manhã - João Cabral de Mello)











Poesia do último dia. Dos momentos finais da nossa manhã.
A manhã que tecemos por sete anos.
As manhãs em que vivemos entre gritos de galo
e fios de sol.
Hoje, aparentemente terminada essa manhã,
os responsáveis por terem tornado-a tão inesquecível
se encontram para relembrá-la.
Até os que não foram avisados do encontro apareceram,
talvem tenham ouvido, ainda que sem perceber,
os ecos do canto do galo...

E foram breves momentos,
tão breves como a passagem de um cometa.
Momentos feitos de lembranças, risos, histórias,
cores, fotos, palavras amigas, promessas de haver outros encontros,
e certeza de que dentro de nós
essa manhã sempre permanecerá.
Como parte de nós,
parte da nossa história.
Parte do nosso dia.

(Manhã = os sete anos a que me refiro.
Dia = a vida inteira.)

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